Briga com SBT fez Globo mudar grade na última final Corinthians x São Paulo no Paulistão

O São Paulo vai voltar a disputar uma final de Paulistão depois de 16 anos. A última aconteceu em 2003, contra o mesmo Corinthians que será o rival na briga pelo título de 2019 nas próximas duas semanas. Aquela decisão ficou marcada por um regulamento confuso e uma briga entre duas emissoras de televisão. O duelo Corinthians x São Paulo, que acabou em título corintiano, foi transmitido por SBT e Rede Globo. E o canal carioca teve que mudar a sua grade para não ver a rival ganhar exclusividade na decisão. O Torcedores relembra agora esse capítulo marcante do Campeonato Paulista e do clássico Majestoso.

Allan Simon
Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e Rede Record. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016.

Crédito: Divulgação/Arena Corinthians

O duelo Corinthians x São Paulo ficou marcado pelas finais do Paulistão serem em horários alternativos, isso porque a emissora de Silvio Santos tinha da FPF a garantia de escolha de datas da competição. O SBT adotou como padrão naquele torneio não mexer com o Domingo Legal, programa forte na briga dos domingos no Ibope, e por isso tirou os duelos de TV aberta das tardes dominicais nas fases anteriores, rompendo com a prática da Globo de mostrar jogos às 16h dos domingos.

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A Globo, que exibiria diversas finais estaduais naquele tradicional horário das 16h no domingo, teve que cavar espaço em sua programação para abrir exceção à final Corinthians x São Paulo. Durante duas semanas, a emissora carioca precisou respeitar escolhas do SBT. Primeiro, com o jogo de ida em um domingo às 18h. Depois, com a decisão do título em um sábado, no mesmo horário. (Leia mais sobre a briga SBT x Globo mais adiante neste texto).

Para completar o “pacote”, os torcedores foram aos dois jogos no Morumbi sem saber de forma clara quem teria a vantagem no caso de empate no placar agregado. O regulamento da competição dizia que prevaleceria o time com menos cartões amarelos. O presidente da FPF, Eduardo José Farah, tentou reinterpretar e considerar critérios técnicos. No primeiro caso, a vantagem seria corintiana. No segundo, tricolor. Os dois times foram a campo no dia 22 de março, data do segundo jogo da final, ainda sem saber se o campeão seria conhecido naquele momento, ou em algum tribunal. O Corinthians venceu o primeiro jogo por 3 a 2. Se o São Paulo devolvesse com uma vitória por um gol de diferença, o caos estaria instalado.

Mas não precisou. O Corinthians voltou a vencer por 3 a 2 e faturou o título paulista de 2003. Comemorou levantando o troféu embaixo de placas com enormes logotipos do SBT, uma clara provocação da FPF à Globo. Depois daqueles jogos, o SBT nunca mais exibiria uma partida oficial de clubes brasileiros para todo o país. Tentou comprar a Série B do Brasileirão, que teria Palmeiras e Botafogo como grandes vitrines, mas acabou perdendo para a Globo. Voltou a mostrar futebol no meio daquele ano, com a Copa Ouro da Concacaf, que teve a seleção brasileira como convidada especial. Recentemente, a emissora tem mostrado a Copa do Nordeste de maneira apenas regional.

Veja as imagens de Corinthians x São Paulo na Globo em 2003:

Veja imagens de Corinthians x São Paulo no SBT em 2003:

Globo x SBT: a briga que marcou o Paulistão 2003.

A história começa alguns meses antes do Corinthians x São Paulo, ainda no fim de 2002. Aquela temporada havia sido marcada pelo esvaziamento dos estaduais. O futebol brasileiro passou a apostar nos torneios regionais em busca de mais clássicos e confrontos de maior apelo. O Paulistão, por exemplo, foi disputado por apenas 12 times e acabou vencido pelo Ituano. Não teve as presenças dos quatro maiores clubes do estado, nem dos demais participantes da Liga Rio-São Paulo (São Caetano, Guarani, Ponte Preta, Portuguesa, e o então Etti Jundiaí). Um “Super Paulistão” reuniu o time de Itu, campeão estadual, e os três melhores paulistas do Rio-SP (Corinthians, São Paulo e Palmeiras). O Tricolor superou o Verdão na semifinal, venceu o time do interior na decisão, e levou o título.

A edição da tal Liga Rio-São Paulo não empolgou. A busca por rivalidades e jogos clássicos entre times dos dois estados terminou em um fiasco das equipes cariocas. Os quatro últimos colocados foram times do Rio de Janeiro. E os quatro semifinalistas foram todos paulistas, incluindo o São Caetano. Com a adoção pela CBF do formato de pontos corridos para o Brasileirão a partir de 2003, estava definitivamente morta a ideia dos regionais no futebol nacional naquela época. Os estaduais voltaram a ter força.

Nesse processo de retorno dos estaduais, a FPF (Federação Paulista de Futebol) passou a negociar a renovação de contrato dos direitos de transmissão de sua competição com a Rede Globo, que fora detentora nos anos anteriores, mas repassou à então parceira Rede Record, por meio da agência Traffic, o torneio esvaziado vencido pelo Ituano. A entidade, que na época era presidida por Eduardo José Farah, cobrava R$ 12 milhões pelas transmissões em TV aberta de 12 partidas na competição.

A Rede Globo achou a proposta muito cara. O novo Paulistão seria disputado praticamente em dois meses, do fim de janeiro ao fim de março, dando espaço para um Brasileirão com 24 clubes e disputado no formato de pontos corridos, ocupando a imensa maioria do calendário. A emissora carioca resolveu recusar a renovação naqueles termos. Farah se movimentou e negociou com o SBT. Acabou fechando um pacote que dava ao canal de Silvio Santos os direitos de 22 partidas pelos mesmos R$ 12 milhões.

Essa decisão gerou irritação na Globo. A emissora considerava que a proposta com 10 jogos a mais deveria ter sido feita a ela também, já que o contrato anterior tinha um cláusula de preferência, na qual a emissora carioca tinha o direito de ver e igualar qualquer proposta feita por uma concorrente. O canal carioca chegou a enviar um fax anunciando que exerceria esse direito de preferência e toparia comprar por R$ 12 milhões os direitos de 22 jogos.

A história do fax nunca foi explicada de fato. A Globo alegou que enviou a mensagem no último dia do prazo, no final de dezembro. A FPF, por sua vez, dizia que não recebeu porque já estava em recesso nos feriados de fim de ano. Esse argumento foi usado pela gestão de Farah para explicar por que a entidade fechou com o SBT. Na virada do ano, a emissora paulista começou a montar sua equipe de transmissão para o Paulistão 2003. Contratou nomes experientes, como o apresentador Elia Jr, dos tempos áureos do esporte na Band, pessoas consagradas no rádio, como o narrador Dirceu Maravilha, e uma jovem aposta que viria a se tornar um grande nome da locução esportiva na TV, Paulo Andrade, hoje um dos principais narradores dos canais ESPN.

Entre as novidades, estavam as “rodadas duplas”, com jogos transmitidos às 16h e às 18h dos sábados, além de exibições de partidas nas manhãs de domingo, às 11h, uma estratégia do canal de Silvio Santos para não mexer com o Domingo Legal, programa de Gugu Liberato que disputava ponto a ponto no Ibope com Globo e Faustão. Nas quartas, o SBT tomou uma medida que agradava aos torcedores: os jogos começariam às 21h, e não no “odiado” horário das 21h45, o popular “depois da novela” que marcou até há pouco tempo as transmissões da Globo, prejudicando a vida de quem vai ao estádio e precisa usar transporte público para voltar para casa.

Enquanto o SBT, que havia parado de transmitir futebol após o fim da Copa Mercosul de 1998 (chegou a anunciar a transmissão da edição de 1999, mas desistiu), buscava se ambientar novamente ao esporte com as transmissões do Sul-Americano Sub-20 e do Torneio do Qatar (competição na qual a seleção brasileira sub-23 se preparou para o Pré-Olímpico do ano seguinte), a Globo foi aos tribunais para reverter o contrato feito pela rival e a FPF. Essa briga se intensificou na véspera e no dia da abertura da competição.

No dia 24 de janeiro, uma sexta-feira, a Globo conseguiu liminar na Justiça fazendo valer o seu direito de preferência na renovação contratual. Como não tinha interesse de exibir os jogos das rodadas duplas programadas para o SBT, a emissora carioca colocou a Record na jogada. Exibiria as partidas de sábado às 16h, deixando o canal de Edir Macedo ficar com as partidas do mesmo dia às 18h, além dos domingos às 11h e das quartas às 21h. Tudo isso porque a FPF se recusaria a mudar os horários para readequá-los aos padrões globais. A entidade, sob Farah e seu então vice-presidente, Marco Polo Del Nero, ficou o tempo todo ao lado de Silvio Santos.

No fim da noite daquela sexta-feira, o SBT conseguiu uma outra liminar cassando a decisão que dava à Globo o contrato do Paulistão. No dia seguinte, 25 de janeiro, as duas emissoras chegaram ao estádio Bruno José Daniel, em Santo André, para transmitir a partida de abertura do torneio, um duelo entre Santo André e Santos. Cada uma alegava ter uma decisão judicial e os direitos exclusivos de transmissão. A FPF tentou impedir a entrada, e posteriormente retirar os equipamentos da Globo. A equipe de narração e comentários não conseguiu entrar no estádio. A emissora carioca bateu o pé e iniciou a transmissão mesmo assim.

No intervalo, a FPF fez nova tentativa de desligar os equipamentos da Globo. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo na época, os funcionários da federação protagonizaram cenas de “comédia pastelão” e quase acabaram tirando o SBT do ar. Com uma demora de mais de meia hora para o reinício do jogo, a entidade desistiu de tentar tirar a emissora carioca e deixou a partida seguir. O SBT acabou perdendo feio no Ibope: 16 a 5 para a Globo.

O jogo seguinte, às 18h, entre Marília e Corinthians, chegou a ter a presença da Record para a transmissão. Mas a emissora de Edir Macedo não quis entrar na briga das rivais e desistiu. Sozinha, o SBT fazer uma boa média de 13 pontos com um jogo do Timão. Mas não chegou nem perto da Globo, que com sua grade normal anotou 23 pontos. No domingo (26 de janeiro), às 11h, o duelo entre Paulista de Jundiaí e São Paulo foi exibido com exclusividade mais uma vez pelo SBT, que perdeu para a Globo por apenas um ponto: 12 a 11.

A Globo aproveitou a semana seguinte para retomar os direitos de transmissão em mais uma liminar. Chegou a autorizar a Record para a transmissão de Ponte Preta x Palmeiras com exclusividade. O duelo seria realizado em Campinas às 21h de uma quarta-feira, não interessando para a grade global, que se mantinha fiel à novela no horário nobre. No dia do jogo, uma forte chuva deixou o gramado bastante encharcado, mas não a ponto de provocar um adiamento. Pois a FPF resolveu cancelar e remarcar a partida para o dia seguinte, na expectativa de uma nova decisão judicial favorável ao SBT. Como ela não veio, o jogo acabou ficando para algumas semanas depois.

O primeiro adiamento gerou uma outra “pancada” do SBT. A emissora resolveu colocar no ar a transmissão de Corinthians x Portuguesa, realizado no Pacaembu, e reservado para transmissão do SporTV, canal do Grupo Globo, que detinha outro pacote de jogos da competição estadual. O apresentador Ratinho participou daquela exibição como comentarista convidado. E chegou a brincar no ar.  “Eu vim aqui para comentar o jogo do meu Palmeiras, mas vamos comentar o do Corinthians mesmo”. O canal de Silvio Santos e a FPF se escoraram em uma interpretação curiosa divulgada na época, segundo a qual o jogo entre Corinthians e Portuguesa reunia duas equipes que disputaram a Liga Rio-São Paulo em 2002, o que livraria partidas com dois times nessa condição da decisão judicial de preferência na renovação do contrato com a Globo.

Nas semanas seguintes, Globo e Record se dividiram nas transmissões, mas a FPF se recusou a remarcar as partidas em outros horários que não fossem os combinados com o SBT. Isso gerou situações raras, como as transmissões de jogos de times grandes na Record aos sábados às 18h e domingos às 11h, enquanto a maior emissora do país ficava com duelos como Ituano x Guarani e União São João x Portuguesa nas tardes de sábado.

Uma decisão judicial no meio do campeonato permitiu que Globo e SBT transmitissem juntas o Paulistão, mas tirou a Record da parada. Ficou mantida a preferência do canal de Silvio Santos na escolha de datas e horários. E foi por isso que a Globo precisou modificar sua grade não apenas nas finais Corinthians x São Paulo, como também em um dérbi na semifinal, quando Corinthians e Palmeiras jogaram em uma quarta-feira às 21h, mexendo com Jornal Nacional e novela da emissora carioca.

Esse clássico teve ainda outro toque de rivalidade. Em uma espécie de acordo para ter o jornalista José Luiz Datena divulgando seu novo “Brasil Urgente” no Domingo Legal, a Band cedeu Luciano do Valle para uma narração especial de Palmeiras x Corinthians no SBT. Com receio de perder espaço para essa transmissão, a Globo escalou Galvão Bueno, provando que seu esforço de superar o canal de Silvio Santos não estava apenas em cortar 10 minutos do JN e mais 40 da novela “Mulheres Apaixonadas”. Deu certo: a emissora carioca venceu, e venceu bem. Globo 39 x 13 SBT.

A Justiça não deu uma palavra final com o campeonato em andamento. No ano seguinte, a Globo retomou os direitos de transmissão e nunca mais os perdeu no Paulistão. Dividiu as exibições com a Record até 2006, passou a ter a Band como parceira em 2007, mas nos últimos anos tem mostrado de forma exclusiva a competição estadual.

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