A verdade sobre o glamour empreendedor

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Alguém no interfone – foi aquela cliente que você havia marcado às 11 h e que atrasou devido ao trânsito, chegando ao meio-dia (mais um dia sem almoço). O café acabou – corre lá, passa um café fresquinho porque é importante receber bem. Água – precisa ligar para o fornecedor de água. A página do Facebook precisa de um up – precisa ligar com urgência para aquela colega que disse que tem alguém que pode fazer isso. A contadora! Precisa mandar para ela aquele espelho de IPTU – e era para ontem! A agenda, onde está a agenda da semana? Você tinha certeza que havia uma brecha entre a retirada dos produtos na fornecedora, e ia fazer a sobrancelha nesse intervalo; deixa para lá, você faz isso outro dia, não é mesmo? Essa é a frase que você vai repetir semanalmente. Acordou às 3 h da manhã no susto: “preciso procurar alguém que entenda de programação para ver o que está acontecendo com os pedidos errados no site, enquanto isso vou enviar e-mail avisando as clientes que as compras não foram finalizadas e vou enviar um mimo pra cada uma delas com pedido de desculpa.”

Cansou só de ler? There you go, my dear friend!

Essa é a realidade de qualquer pequeno negócio – não tem outro jeito – o comecinho quase sempre desperta em nós habilidades desconhecidas; isso porque a falta de recursos nos obriga a encarar qualquer tarefa. Alguém precisa colocar a mão na massa pra mágica acontecer, e se não você, então quem?

Te decepcionei? Se a resposta for sim, agradeça por isso ter acontecido agora; já pensou você tendo que lidar com produção às 3 h da manhã com o cabelo todo revirado pra cima, de meias e sem banho? Se você tiver filhos adicione aqui – crianças!

Escrevendo sobre glamour empreendedor fui dar uma olhada nos conceitos de empreendedorismo pela internet, daí o que mais me agradou foi o seguinte:

“empreender significa resolver um problema ou situação complicada. É um termo muito usado no âmbito empresarial e muitas vezes está relacionado com a  criação de empresas ou produtos novos.  Empreender é também agregar valor, saber identificar oportunidades e transformá-las em um negócio lucrativo”.

Na minha interpretação livre, empreender significa colocar sua força (física e psicológica) no seu negócio; é fazer de você a ferramenta que vai transformar seu produto/serviço/ideia numa realidade nesse mercado onde quase tudo já existe e a obsolescência é programada.

Empreender é assumir pra si a responsabilidade de conquistar a realização profissional por meios próprios, ideias e ideais, fazendo o que tiver que ser feito para alcançar um resultado satisfatório e que muitas vezes (na maioria das vezes) leva um tempo pra acontecer.

No percurso você provavelmente perderá amigas e uma grande parte da vida social, você vai declinar o convite praquela cervejinha marota só pra terminar de conferir uma coisa (que vai engatar noutra coisa e você trabalhar mais um pouco); hora extra você nem sabe o que é porque na sua realidade de jornada de 12 horas isso não faz mais diferença.

Trabalhando com o empreendedorismo feminino invariavelmente noto que as histórias e trajetos, apesar de diferentes, têm sempre a mesma trama: a mulher inicia seu negócio sozinha e é ela quem faz tudo, ela se multiplica em financeiro, RH, produção, controle de qualidade, relacionamento com cliente e etc., isso até que as coisas comecem a prosperar e o capital da empresa permita a contratação de pessoal para dividir algumas tarefas. Sobre isso ser positivo ou negativo falaremos noutra oportunidade.

Há algum tempo vem sendo cultivada, plantada e regada a ideia de que empreendedoras são estrelas, pessoas maravilhosas que foram agraciadas com o milagre da realização; são cultas, comem bem, se vestem de maneira impecável e seus trejeitos são afinados com a quantidade de expressões em inglês que usam em seus discursos. Uma pena, pois essa não é a realidade da empreendedora que largou o emprego celetista pra investir na ideia de criar a sua marca de doces, roupas, acessórios, decoração, entre mil outras coisas. Me pergunto: em que momento empreender se tornou algo tão “cool”? Certamente eu não vi!

A falsa noção da realidade não causa outra coisa senão frustração naquela mulher que passa a se achar derrotada porque passa 12 horas trabalhando sem parar e nem tempo pra ir a manicure ela tem. Cadê o glamour? Pois ela viu o glamour na página daquela empreendedora sorridente que grava vídeos maravilhosos falando sobre como o pensamento positivo ajuda nesses casos (disse a empreendedora cansada). Consequência: por não ter uma referência pra chamar de sua – ela desistiu. Perdemos uma guerreira.

Pare aqui e reflita: você acha mesmo que essa verdade é universal? Pois estou aqui pra te dizer que não é. Empreender é virar noite, é rascunhar mil ideias para salvar uma, é apresentar inúmeros projetos e refazer o que ficou melhor, é uma experiência de tentativa e erro (esse mesmo processo do qual você era tão intima na infância). Durante a trajetória solo você é uma fazedora, uma mulher que faz aquilo que acredita e tem como objetivo conseguir seu sucesso e seu sustento utilizando suas ferramentas e finalmente dizer: empreendi!

Onde algumas de nós enxerga glamour, ideias incríveis, contatos maravilhosos, eventos de networking regados a muita inspiração e frases de impacto e autoajuda, eu te falo o que existe: trabalho, dúvida, incerteza, cansaço, mais trabalho e coragem.

Você não sabe se seu negócio vai resistir à crise nem se vai persistir em meio aos concorrentes, então você trabalha pra que isso aconteça. Você não tem tempo pra se preocupar se o mantra “sou capaz” funciona, se aquela empreendedora X vai participar do evento Y.

Um belo dia você vai se dar conta que glamour era ter tempo pra tomar uma cerveja ao sair às 18h em ponto do trabalho, ou assistir a um seriado no Netflix sem pegar o bloco de notas e anotar tudo o que sua cabeça não para de falar.  E ainda assim você vai poder dizer de peito aberto: não tem glamour, mas tem muito muito brilho – nos olhos, porque fazer da sua vida e carreira aquilo que você de fato acredita não tem preço!