Brincalhaço contra medida restritiva faz sucesso em Brasília

Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

Um diferencial de Brasília é a sua arquitetura. Por ser uma cidade planejada, a construção do Plano Piloto de brasília permite que a vivência dos moradores seja diferente da de quem vive em outras cidades. Porém as restrições estão se tornando cada vez mais comuns e isso chegou a um ponto que foi preciso organizar um brincalhaço contra proibições em Brasília.

O que ocorreu foi que a arquiteta Larissa Villela, 31 anos, levou suas filhas  Maria Eduarda, 4 anos e Rafaela Maria, 2, para brincarem no pilotis embaixo do Bloco H da quadra 312, na Asa Sul, no Plano Piloto, onde mora.

“As crianças estavam brincando de panelinhas embaixo do prédio quando a babá foi abordada. Inicialmente, não quis discutir com o porteiro, mas levei o caso à assembleia de condomínio”, disse a mãe. Porém, ao levar o caso à assembléia, ela se deparou com uma regra nada positiva para as suas filhas

“Me disseram que lugar de crianças é no parquinho, e que não poderia haver brinquedos espalhados pelo chão. Só pode ficar no pilotis se não fizer barulho. Mas acredito que não pode ser tão restrito assim. As crianças estão sendo proibidas de serem crianças. Sou de Brasília e já brinquei muito debaixo do bloco onde morava”. E Larissa decidiu levar o problema para o Facebook.

A criação de Brasília, porém, foi feita sob ideais totalmente diferentes da proibição de brincadeiras em pilotis. Inclusive, o urbanista Lúcio Costa tinha uma ideia bem inclusiva para ps pilotis. O item 1 das Características fundamentais do Plano Piloto é claro:

“A escala residencial, com a proposta inovadora da superquadra, a serenidade urbana assegurada pelo gabarito uniforme de seis pavimentos, o chão livre e acessível a todos através do uso generalizado dos pilotis e o franco predomínio do verde, trouxe consigo o embrião de uma nova maneira de viver, própria de Brasília e inteiramente diversa das demais cidades brasileiras”.

Então, para consolidar o direito das crianças de brincarem debaixo dos prédios, foi organizado um brincalhaço para o dia 29 de janeiro. O evento foi compartilhado no Facebook e viralizou, com mais de 3.6 mil pessoas interessadas e 2.8 mil pessoas confirmadas.

E o brincalhaço aconteceu. Em protesto contra as restrições de Brasília, ele juntou crianças, pais, apoiadores e muita diversão. Bicicletas, cartazes, desenhos e pinturas de rosto foram alguns dos modos que as crianças tiveram de ocupar o espaço. E os pais deixaram claro que não irão desistir do direitos de seus filhos brincarem nos pilotis.

“Brasília foi construída para ter livre acesso. Sou contra a criança ficar muito em jogo, ligada em televisão. Meu filho, por exemplo, nunca assistiu televisão. Acho que ficar embaixo do prédio é importante, inclusive por uma questão de sociabilidade. Brasília está ficando muito careta, são muitas proibições”, disse a advogada Gabriela Pessoa, mãe de João Gabriel, de 1 ano.

A servidora pública Kelly Martins, mãe da Júlia, de 2 anos, também apoiou o brincalhaço. “O pilotis é uma construção em área pública, que não se pode fechar e restringir as crianças de brincar. Claro que há exceções para objetos que possam machucar. Mas vejo que Brasília está numa crescente onda bastante restritiva, como a Lei do Silêncio, que também impede barulhos, sons [no período de 22h às 7h]. Apesar disso, não tem como impedir a criança de ser criança, de brincar.”

Apoio de instituições

O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) do Distrito Federal também fez questão de apoiar o brincalhaço e divulgou uma nota no Facebook relembrando um pouco da história de Brasília e sua característica de ser aberta para as pessoas.

Além do Iphan, a Secriança (Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do Distrito Federal) também expressou seu apoio ao brincalhaço e acionou o Conselho Tutelar da região para garantir os direitos das crianças de ocuparem o espaço.

“A Secriança defende o direito de brincar das crianças no espaço público, com segurança, principalmente com acompanhamento de familiares e responsáveis. Vale lembrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA] garante como direito fundamental de crianças e adolescentes o direito à liberdade, sendo expresso em seu Artigo16: o direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: brincar, praticar esportes e divertir-se”.

Com informações de Agência Brasil