O mito do sexo lésbico sem complicações: conheça os riscos

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“Entre mulheres homossexuais, como não há a preocupação com gravidez, é muito frequente que não se preocupem com prevenção de doenças, também pela ideia errada de que não pegarão em relações somente com mulheres”, porém, “é importante acabar com esse mito, pois risco menor não significa risco ausente. E doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) podem deixar sequelas permanentes nas mulheres.” O alerta é feito pelo Dr. Rogério Leão, médico da equipe do Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia (IPGO), e Médico Assistente na área de Ginecologia do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher, que tem 12 anos de experiência na área.

De acordo com um estudo do Centro de Referências e Treinamento DST/Aids, de 2012, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, apenas 2% das lésbicas entrevistadas se previnem para evitar as doenças sexualmente transmissíveis(DSTs). Algumas mulheres ouvidas pela reportagem não conheciam os riscos e algumas já ouviram até recomendação do uso de papel-filme (papel de PVC para uso na cozinha) para prevenir doenças.

O Dr. Victor Hugo Tejerina, que atua como ginecologista e obstetra há dez anos, conta que a maior parte das pacientes demonstram preocupação apenas em cumprir exames de rotina e conhecer ou manter um método contraceptivo, ou seja, há pouca iniciativa para falar sobre sexualidade e dúvidas relacionadas.

Para ultrapassar esta barreira, o médico pergunta, já na primeira consulta, sobre sexualidade, métodos contraceptivos e histórico de doenças sexualmente transmissíveis. Assim as pacientes percebem que o assunto, ainda tabu para a sociedade, pode ser abordado no espaço do consultório. Sobre a questão do papel-filme, o especialista esclarece que, há muitos anos, houve recomendação de órgão americano (CDC – Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em tradução livre) para uso, mas há apenas um trabalho cientifico que sugere diminuição na transmissão do vírus de herpes simplex, e não contra outras DSTs e HIV, por isso o uso do material na verdade não é adequado.

Infelizmente, não são todos os médicos que abrem o diálogo da mesma forma. Luísa Silva, de 22 anos, conta que não tem problemas para falar sobre sexualidade na família, mas não tem o costume de abordar o assunto com seu ginecologista. “Converso muito com uma rede de lésbicas sobre sexualidade e, eventualmente, sobre doenças sexualmente transmissíveis”, conta. Até hoje, nunca foi feita, no país, uma campanha específica de conscientização sobre DSTs para bissexuais e lésbicas.

Nesse cenário, ganham importância as iniciativas da sociedade, como algumas organizações que aproximam e orientam as jovens. É o caso do Grupo Arco-Íris, no Rio de Janeiro. A ONG, fundada em 1993, defende as causas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. A Organização promove ações em várias pontas, como educação, direitos humanos e saúde. “Lá tivemos um projeto chamado Laços e Acasos, onde fui multiplicadora e me mantinha informada sobre DSTs e saúde da mulher lésbica. Fazíamos um evento com roda de conversas,exibição de filmes e debate”, diz Luiza Carvalho.

A designer gráfica conta que já usou um preservativo recebido no projeto, uma película plástica esterilizada e hipoalergênica para sexo oral. Outra alternativa é o preservativo feminino, que chegou ao mercado brasileiro em 1997, mas não se popularizou até hoje. Diferente do preservativo masculino, distribuído livremente na rede de saúde pública desde 1994, o feminino tem distribuição gratuita voltada para as mulheres em situação de vulnerabilidade, como profissionais do sexo e usuárias de drogas.

A opção ainda é mais cara e mais difícil de ser encontrada. No início da distribuição da camisinha feminina, em 2012 , o Ministério reservou um lote de 20 milhões de preservativos femininos, enquanto no ano anterior, distribuiu 493 milhões de camisinhas masculinas.

Saiba abaixo as dicas dos especialistas para evitar doenças nas relações sexuais entre mulheres:

– O preservativo masculino não deixa de ter utilidade para os casais, uma vez que, para quem usa acessórios para penetração deve sempre usar camisinha, sendo trocada no caso de compartilhar o apetrecho.

– não introduzir na vagina objetos ou dedos que foram introduzidos no ânus. Isso poderia levar bactérias intestinais para a vagina, podendo chegar ao útero e causar infeção.

– Quando for introduzir dedos na vagina ou ânus, pode-se usar dedeiras, camisinha nos dedos ou luvas, principalmente se tiver alguma lesão nos dedos.

– doenças como herpes genital (lesões bolhosas e dolorosas), condilomas (verrugas genitais) e outras úlceras externas podem ser transmitidas só pelo contato entre as genitálias.

– No sexo oral, use filme plástico limpo e resistente, colocando-o sobre o clitóris, vagina e vulva. Os filmes plásticos que podem ser usados no microondas são mais porosos e permitem passagem de bactérias.

– Clamidiase: pode ser transmitida por sexo oral, vaginal e anal. Pode levar a doença inflamatória pélvica com graves repercussões aos órgãos reprodutivos e dor na relação.

– O HPV pode levar desde lesoes verrucosas (condilomas) até câncer de colo uterino. Já existem vacinas para diminuir estes riscos, por isso a medida pode ser avaliada com um médico.

– Também podem ser transmitidas a Vaginose Bacteriana, Pediculose pubiana (também conhecida como piolhos genitais) e Tricomoniase, causada por um parasita, que causa vaginite e corrimento vaginal.

– Gonorréia e Hepatite B estão entre as doenças menos comuns entre lésbicas e mulheres bissexuais.

– Na dúvida, procure seu ginecologista. Ele saberá te dar todas as orientações necessárias. Vale buscar recomendações com amigas, para ser um profissional que você confie, que se mostre sem preconceito e sinta-se à vontade para conversar sobre suas questões.