Minha batalha contra a bulimia: 20 anos de luta e a vitória de amar do próprio corpo

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“Você está ficando cada dia mais gorda”. Essa frase proferida pela minha avó paterna gritou nos meus ouvidos por mais de 20 anos. Era natal, década de 90. Eu era uma menina recém entrada na adolescência que até então não dava a mínima para o peso e o corpo. Ao ouvir aquilo depois de um farto almoço familiar natalino com direito a muito peru, sorvete, doces e refrigerante, senti meu chão abrir. E ainda completou “Gente gorda não é bonita e morre cedo”.

Para uma menina de 13 anos que começava a flertar com coleguinhas da escola e a frequentar matinês dominicais nas discotecas da moda aquilo teve um peso decisivo: emagrecer passou a ser uma meta a ser alcançada a todo custo, nem que para isso sacrificasse minha saúde. Afinal, nenhum menino se aproximaria da “gordinha “ da turma. Minha avó paterna gordofóbica foi enfática ao afirmar que não existia beleza em corpos fora dos padrões e eu, uma adolescente em formação, acatei aquilo como verdade absoluta.

E assim, levantei da mesa com toda a família reunida e fui direito ao banheiro. Já tinha lido que algumas mulheres provocavam o vômito depois das refeições como uma forma de não engordar e pensei “pronto está resolvido. Posso comer o que eu quiser e depois é só vomitar”. E assim o fiz. Não só naquele dia, mas no seguinte, no outro, no outro e por quase 20 anos da minha vida. Do natal até o carnaval do ano seguinte já tinha emagrecido muito graças a dietas absurdas, vômitos provocados, laxantes e exercícios físicos extenuantes.

Minha adolescência toda foi marcada por regimes malucos de todos os tipos que me indicavam e seguia rigorosamente: dieta da lua, da USP, do carboidrato, dos líquidos. E com isso inevitavelmente queda de cabelo, ausência da menstruação, sonolência, fraqueza e baixo rendimento escolar que me rendeu reprovação na escola. Como que uma menina em idade escolar e desenvolvimento físico conseguiria estudar faltando nutrientes no seu corpo?

Minha mãe me questionava o porquê de tanta dieta, tanto exercício, tanta preocupação com o corpo. Ela ficou muito desesperada. Eu repetia como um mantra a frase que tinha ouvido três anos antes “gente gorda não é bonita e morre cedo”. Fui a psicólogos, psiquiatras, nutricionistas e o que eu ouvia era sempre o mesmo “você tem transtorno alimentar”.

Ok, eu já sabia disso. Nessa altura eu não era mais uma menininha de 13 anos e sim uma jovem recém saída da adolescência anoréxica e bulímica. Mas, e dai? Eu queria era estar magra, magérrima, e pouco importava o meu diagnóstico. Minha felicidade era “sambar” dentro das minhas calças jeans tamanho 36. Um dia feliz era quando ia nas lojas de departamento e as roupas da sessão infantil cabiam em mim.

Os moderadores de apetite eram meus companheiros diários e como aquilo me fazia mal. Na época não sabia que tinha também transtorno bipolar e que aquelas drogas só prejudicavam mais e mais o meu quadro psiquiátrico. Ficava agressiva, irritada, com taquicardia e boca seca. Tinha muita insônia e crises de choros frequentes. Pouco me importava. Eu estava magra e ficar sem remédios para emagrecer estava fora de cogitação naquele momento.

Por conta do transtorno alimentar me tornei autodestrutiva. Bebia muito e me relacionava com homens abusivos. Não conhecia outra forma de me relacionar a ser de uma maneira doentia e desequilibrada. Hoje, sei que meus relacionamentos abusivos eram um reflexo da maneira com que eu me relacionava com o meu próprio corpo.

Entre dietas, tratamentos, idas e vindas com meu transtorno alimentar e até uma internação, quando cheguei ao fundo do poço com 44 quilos, fui sobrevivendo. Viajei, me formei, fui mãe. Mas no fundo sabia que tinha algo de muito errado comigo. E aí veio o feminismo e com ele, um novo olhar sobre mim mesma, sobre o meu corpo. Corpo esse tão maltratado, negligenciado, odiado. Corpo que custei a acreditar que existia beleza.

Me olhar tal como sou foi uma das experiências mais incríveis da minha vida. Me perceber como mulher, observar no espelho o meu corpo e descobrir que ali sempre existiu alguém muito maior  foi libertador. Não foi fácil e ainda é uma luta diária romper com os padrões que me foram impostos tão precocemente. Cada dia é uma vitória. Cada dia comemoro meus avanços e me sinto muito melhor assim.

Hoje, não me privo mais de comer o que gosto, não conto calorias e enxergo beleza nas coisas mais simples que a vida me mostra. Dias desses vi uma foto da época em que estava muito magra no auge do transtorno alimentar. Percebi uma grande tristeza no meu olhar fundo e sem brilho, vi um corpo frágil pedindo socorro. Não reconheço aquela pessoa pálida e franzina que eu era, mas sinto orgulho na pessoa que me transformei.

Hoje, me olho no espelho e gosto do que vejo. Mesmo com 10 quilos a mais, gosto de olhar minhas curvas, minhas dobras, minhas estrias que vieram na gravidez, meu bumbum com celulites e meu corpo lindo de quem já passou dos 30 anos. Minhas marcas, imperfeições, cicatrizes contam minha história e me transformaram na mulher que sou, na mulher que não tem mais medo de colocar um biquíni e ir para a praia lotada, deitar de bunda pra cima e tomar sol feliz da vida mostrando um corpo real e não photoshopado. Meu corpo conta a trajetória de alguém que sobreviveu à bulimia, à anorexia, a relacionamentos abusivos e que hoje é feliz e se aceita.