Essa tal sororidade: campanhas feministas unem e apoiam mulheres

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No feminismo, uma palavra sempre é repetida entre as mulheres: sororidade. Sororidade significa irmandade entre mulheres, solidariedade feminista no combate à rivalidade e à competição pregadas pelo machismo. É também a ideia de que juntas as mulheres são mais fortes. Com esse objetivo, mulheres de todas as partes do Brasil vêm se unindo para transformar o mundo em um lugar mais justo e seguro e com mais oportunidades para todas. Dessa forma, muitas iniciativas, ações e campanhas estão surgindo a fim de assegurar às mulheres melhores condições de vida dentro de um sistema machista e patriarcal.

Vamos Juntas?

Um dia, voltando tarde da noite para casa, a jornalista e feminista Babi Souza sentiu o medo e a insegurança comum a toda mulher que está vulnerável em uma praça escura e deserta. E pensou que se as mulheres se unissem nas ruas para voltar do trabalho, escola ou balada, se sentiriam mais seguras. Nasceu assim o Vamos Juntas?, um movimento de sororidade e luta contra a violência de gênero.

Segundo Babi, “Só as mulheres entendem o alívio de olhar para trás na rua e ver que a pessoa que está caminhando atrás de você é outra mulher”. A ação cresceu de forma acelerada, Em 24 horas, a página do movimento atingiu 5 mil curtidas. Em 48 horas, 10 mil curtidas. Em 6 dias, 50 mil curtidas e em 2 semanas e meia 100 mil curtidas.

Em poucos dias, o movimento deixou de falar apenas sobre como é importante as mulheres “irem juntas” e passou a falar sobre a importância de “estarem juntas”. Histórias de meninas que tinham tido um dia mais feliz e seguro por terem colocado o Vamos juntas? em prática foram sendo cada vez mais compartilhadas, tornando o movimento conhecido nacionalmente.

Há cerca de um ano no ar, a página tem mais de 300 mil seguidoras e recebe cerca de 100 relatos de assédio por dia. Em março, o movimento se transformou no livro Vamos Juntas? – O Guia da Sororidade, que traz diversos relatos de mulheres que se ajudaram mutuamente caminhando juntas nas ruas, além de falar da importância da união entre mulheres de uma maneira didática.

Mais Amor Entre Nós

Criada no dia 12 de março, a campanha Mais Amor Entre Nós é uma corrente feminista que tem se alastrado pelo Brasil. A ideia surgiu da jornalista Sueide Kintê, que criou um post em sua página do facebook oferecendo serviços de graça para outras mulheres. A mensagem ganhou adesão rapidamente e hoje já soma centenas de seguidoras. Com a hastag #maisamorentrenos, mulheres oferecem ajuda e serviços entre si.

Os serviços trocados são diversos: desde faxina até aula de inglês. Por conta da demanda, a idealizadora da campanha e uma equipe de mulheres voluntárias se dedicam atualmente à criação de um aplicativo e criaram recentemente um site para aproximar as mulheres que desejam aderir ao movimento. “Sororidade é coisa antiga que mulher sempre fez. Uma xícara de açúcar, um chá de boldo colhido direto do pé, ou até uma escuta amiga na porta de casa”, diz Sueide.

A finalidade é unicamente praticar a generosidade entre mulheres no estilo corrente do bem. Desta forma, as participantes oferecem serviços como ficar de babá, ensinar a nadar ou andar de bicicleta, trançar o cabelo, meditar, escrever, dançar, cozinhar e até escrever projetos e tirar uma ideia do papel.

A iniciativa também fomentou a criação de grupos em outros estados como o Mais Amor Entre Nós Jundiaí e o Mais Amor Entre Nós Brasília. As mobilizadoras da campanha reforçam que qualquer mulher pode ser colaboradora. Quem não pode doar uma hora por dia, pode pensar em uma hora por semana, por mês ou até por ano. Não importa a condição, idade, cor, cidade ou profissão. Basta ser mulher e dividir um pouco do que tem.

Direito Delas

Com o objetivo de assegurar e facilitar que mulheres em situação de vulnerabilidade social da Baixada Santista tenham um acesso mais rápido à justiça, as advogadas Amanda Mesquita e Isabela Martino criaram o Direito Delas – um projeto de assistência jurídica gratuita que pretende não se limitar apenas às esferas digitais.

A ideia das advogadas é de também promover palestras, encontros e debates sobre assuntos ligados à legislação, especialmente no que se refere ao direito da mulher. Para Amanda, o contato direto com essas mulheres possibilita uma maior aproximação, sendo mais fácil acolher e encaminhar aos órgãos competentes quando necessário. “Nem todo mundo tem fácil acesso à tecnologia, infelizmente. E o projeto pretende facilitar a comunicação e amparar essas mulheres”, explica Amanda.

O projeto Direito Delas está respaldado pelo Código de Ética da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), já que se trata de advocacia pro bono, ou seja, prestação jurídica voluntária e eventual para quem não possui recursos econômicos para arcar com os custos da contratação de um advogado. Para ser atendida gratuitamente pelo projeto, é necessário ser mulher, residente da Baixada Santista e ter renda familiar de até três salários mínimos. O contato inicial pode ser feito pela página no Facebook ou pelo e-mail: direitodelas@gmail.com

Mete a Colher

A pernambucana Emily Blyza criou com mais cinco amigas uma rede de apoio entre mulheres: a Mete a Colher. A ideia surgiu na Startup Weekend Women, em Recife. Uma das propostas do evento era criar um serviço inovador que ajudassem muitas pessoas. Emily, que trabalha com mídias digitais, não pensou duas vezes e propôs a ideia de uma plataforma que ajudasse mulheres que estão em relacionamentos abusivos. Durante o evento, as idealizadoras fizeram pesquisas, conversaram com pessoas da área e chegaram a conclusão que o ideal seria uma rede que conectasse mulheres que estão precisando de ajuda a mulheres que poderiam ajudar.

Por meio do financiamento coletivo, que durou 45 dias, um aplicativo para celular está sendo desenvolvido para potencializar o alcance do projeto e ampliar o número de pessoas ajudadas. O cadastro na rede é limitado apenas à participação de mulheres, o login deve ser feito com os dados do Facebook para validação do perfil da pessoa e o objetivo é criar uma rede de ajuda mútua entre as mulheres de todo o Brasil. A ajuda oferecida pela rede vai desde uma conversa de apoio e orientação até assistência jurídica para as mulheres vitimizadas.

A rede Mete a Colher é formada pelas designers Carol Cani e Aline Silveira, pela jornalista Renata Albertim, a publicitária Thaísa Queiroz e a desenvolvedora Lhaís Rodrigues. O projeto conta com uma página no Facebook com mais de 30 mil seguidores e com o site http://www.meteacolher.net/.

InfoPreta

Quem é mulher sabe bem como é lidar com o machismo e sexismo em algumas áreas profissionais dominadas exclusivamente por homens. Além disso, muitas vezes mulheres não se sentem seguras em receber em casa um homem para prestar algum tipo de serviço, seja por medo do assédio, seja pelo receio de ser enganada.  Pensando nisso, a estudante de análise e desenvolvimento de sistemas Buh Angelo criou um serviço de manutenção e informática de mulheres para mulheres: a InfoPreta.

A empresa foi fundada há cinco anos e segue como a única do ramo liderada por mulheres negras. Buh sentiu na pele a falta de oportunidades no setor, uma vez que o ramo é dominado por homens. Além do machismo, foi também o racismo institucional que a afastou das grandes empresas. “Resolvi criar o projeto porque eu sempre tive muitas dificuldades em conseguir os materiais que eu precisava para estudar tecnologia. A mulher negra, seja ela cisgênera ou transgênera nunca está realmente inserida na sociedade. O meu objetivo, então, é o de dar condições para que essa mulher, que vive em vulnerabilidade, consiga estudar e se formar”, explica Buh.

A InfoPreta oferece serviços de consultoria tecnológica, inovação e TI, auxilio com TI, tecnologia e equipamentos, oficinas e cursos sobre TI para mulheres, criação de sites e app mobile, restauração, backup e formatação de computadores, manutenção geral e limpeza, instalação e manutenção de programas e acessórios, conserto e montagem de computador, manutenção e consertos de aparelhos eletrônicos em geral, higienização, serviços de manutenção de micros e notebooks, upgrade no equipamento, montagem de micros instalação de softwares e hardwares, limpeza de micros ou notebooks, reciclagem de micros, notebooks e equipamentos eletrônicos em geral, venda de todos os tipos de eletrônicos, desenvolvimento de websites, hot site e e-commerce.

Além dos consertos e orientação técnica para mulheres, Buh possui um projeto de doação de notebooks para mulheres negras, estudantes e mães como forma de garantir a permanência destas nos meios escolares e acadêmicos. Os “Notes solidários da Preta” já garantiram a permanência de diversas mulheres nas universidades e são obtidos por meio de doações. Após serem consertados, são distribuídos entre as estudantes, que devem comprovar sua matrícula e apresentar semestralmente o histórico acadêmico.